Século Sinistro – Release

RDP capa

 

RELEASE

“SÉCULO SINISTRO”

 

“I was first introduced to RDP in 1990 by the Cavalera Brothers. They were intense, intelligent, uncompromising and unapologetic – they were the real deal. Listening to “Século Sinistro”, what strikes me is that, 23 years after the first hearing them, the fire in this band is blasting brighter than ever. No frills, no fat, Just pure power and truth. The RDP steamroller stops for no one”

– Billy Gould (Faith No More) –

Cuidado: Século Sinistro é uma bomba de efeito moral! Não tem como ouvir e não ficar tomado por um ódio agudo e uma vontade ensandecida de quebrar tudo. Mais uma vez o RDP retrata nossa decadência social com fidelidade extrema. E põe extrema nisso!

O disco abre com sons de manifestações nada pacíficas, a trilha sonora da insatisfação coletiva que introduz “Conflito Violento” em que eles lembram que a única democracia que funciona no Brasil é distribuição de porrada: “Borrachada para todos/ Todo mundo apanha igual / Criança,velho, aleijado / Jornalista toma um pau”

Apesar do jogar sal na ferida o tempo todo, João Gordo não perde o bom humor… Negro. Como na música seguinte, a lúdica “Neocanibalismo” que evoca imagens holocáusticas de extremo bom gosto como “Jantares de sado-gourmet / Um chef prepara pra você/ Como o prato principal / Um lindo bebê a provençal”.  Pura finesse hardcore com direito a participação de um dos maiores expoentes da cavalaria metal canarinho, o animalesco Moyses Koslene, guitarrista do Krisiun.

Logo vem “Grande Bosta” que começa em tom marcial pra imediatamente cair na real: Somos uma nação campeã de bola… Nas costas! O refrão é de rir pra não chorar: Sim é campeão !!! / Mas trabalhar aqui ninguem quer …/ Sim é campeão !!! / Em espancamento de mulher …/ Sim é campeão !!! / Se endividar o Zé mané … / Sim é campeão !!! / Em fazer filho e dar no pé … Esqueçå o tema da FIFA: Essa éA trilha sonora oficial da Copa do Mundo 2014!

Daí vem aquele que talvez seja o grande clássico desse disco, “Sangue & Bunda”. Essa faixa é de uma intensidade abissal e fica ainda mais eloquente e norótica com a participação de Atum, o porquinho de estimação do Gordo que manda uns guinchos guturais e desesperadores na introdução. Deliverance feelings!

E a miséria humana, um dos temas prediletos da banda, soa infinitamente mais lazarenta quando contextualizada pela moderna perspectiva tecnológica dos zumbis digitais em que nos tornamos. Poucas vezes esse status deprê foi tão bem retratado como na letra de “Século Sinistro”: Com fome / Sem água / Sem casa / Na vala / Com internet ilimitada. #aaaaaaargh

Em “Jornada para o Inferno”, eles te jogam no degradante mundo das superlotadas cadeias brazucas. Não dá pra entender como um cara tão pacífico quanto o Juninho pode destilar tanta fúria em apenas 4 cordas como nessa música, um verdadeiro primor de brutalidade!

Prenúncio de Treta” relembra os “bons” tempos em que carecas e punks se encaravam em porradarias homéricas. É um verdadeiro manual de como se portar na iminência de uma treta covarde: Ficar bem ligeiro / Garrafa na mão / Esconder no banheiro/ Não é a solução/ Bater primeiro / É a reaçao / Enfia a porrada / Não seja cuzão. A música termina magistralmente com as sábias palavras de Joao Gordo, um sobrevivente dessa época “É…as vezes mais vale um cuzão vivo do que um herói todo furado”. Vai venon…

Apesar da crueza e urgência das letras, ainda há espaço para a poesia. Como em “Stress Pos Traumático”, a bad trip de uma das milhares vítimas da violência urbana. Gordo se supera em versos como “Uma arma na cabeça / E o cu na mão / Estava na mão de Deus/ E Deus na mão do ladrão” enquanto Boka desce a lenha nas peles beirando o limite da insanidade. Nessa hora não tem como nao pensar “Afinal, o que esse cara toma no café da manhã? Choque elétrico? Toddynho sabor speed? Sucrilho com açúcar colombiano?”

A mediocridade virtual exposta nas redes sociais é um poço sem fundo de inspiração pros RDPs. Quando imaginávamos que as facilidades da interconectividade iriam nos alçar a um patamar superior de informação e existência, eis que mais uma vez nós conseguimos fuder com tudo, como atesta “Viciado Digital”:Roupa suja mal lavada / No facebook é de doer/ Twitando suicídio / No instagram foto vai ter”.

Mas a vergonha não dá trégua. Introduzido por um dos melhores riffs do disco (o Jão tá foda!) entra “Boiada pra Bandido”, uma música que esfrega na nossa cara de tacho a impunidade reinante  com requintes de realidade. Que a nova geração de potenciais bandidos não os ouça. Afinal, como lembra Joao Gordo em uma de suas mais furiosas interpretações, “Com redução de pena / O crime compensa / Vale a pena matar / Alegando insanidade / Um menor de idade pode apavorar”.

Se tinha uma cover que merecia figurar nesse album é “Progeria of Power” do Anti Cimex, verdadeiro verbete de dignidade no dicionário punk. Poderia dizer que ficou matador, mas a verdade é que ainda não inventaram um adjetivo a altura para definir o poder de destruição dessa linda canção, que finalmente ganha sua re-interpretaçao definitiva. Ainda mais com a com a dobradinha animalesca de Jão e Moyses Koslene que confere um tom ainda mais apavorante a faixa.

Síntese perfeita da podridão desse país, “Puta, Viagra e Corrupção” é mais uma clássica tríade da banda que já nos deu “Aids, Pop e Repressão”, só que dessa vez endereçada ao vergonhoso circo politico . O refrão “Ladrão  julgando ladrao, é puta, viagra e corrupção” fica ecoando por horas na cabeça e soa ainda mais apavorante porque nesse disco dá pra ouvir praticamente cada fonema que o Gordo emite! É de cagar as tripas!

E mais uma vez a execrável classe de sangessugas tupiniquins é carinhosamente lembrada como a grande causadora de desgraça dessa grande nação. “Pra Pobre Chorar” não nos deixa esquecer o quão baixo e miserável um ser humano pode se tornar quando envenenado pelo poder, culminando num grande acesso de ira do Gordo.

No final do disco você está atordoado, como se tivesse tomado uma injeção de adrenalina anfetaminada na jugular aplicada por uma britadeira. Se o RDP continua cada vez mais sujo e agressivo através dessas últimas décadas é porque o planeta continua a girar pro lado errado. Numa época em que não temos certeza de nada, que a perplexidade impera entre iscas fakes para haters covardes, o RDP nos traz a única virtude que uma banda precisa pra continuar íntegra durante tanto tempo: Verdade. E isso é que você encontra em SÉCULO SINISTRO, mesmo que as boas novas não sejam nada boas.

 

Por Alexandre “Rolinha” Rossi (Circo Voador)

 

Ficha Técnica:

Produção executiva: João Gordo

Gravado e mixado no estúdio Family Mob por André “Kbelo” Sangiacomo em novembro de 2013

Masterizado em São Francisco (USA) – Fantasy Studios

Backing vocals: Jão, Juninho, Gordo, Estevam Romera

Solos de guitarra em “Neo Canibalismo” e “Progeria of Power”: Moyses Kolesne

Pré-produção: Jean Dolabella

Produzido por João Gordo e Ratos de Porão

Ratos de Porão: Gordo – vocal / Jão – guitarra / Juninho – baixo / Boka – bateria

Músicas: Ratos de Porão exceto “Progeria of Power” (Anti-Cimex)

Participação sem crueldade em “Sangue e Bunda”: porquinho Atum

Arte da capa: Ricardo Tatoo

Concepção da arte: João Gordo