1981 - 1985


Início da década de 80. Embalado pela revolução musical surgida debaixo de nomes mágicos como Ramones e Sex Pistols, o movimento punk começa a tomar corpo em São Paulo. Era 1981, Kid Vinil (do Verminose) havia conseguido um programa na Excelsior FM, Fabião (Olho Seco) abrira uma loja na Galeria do Rock (a Punk Rock Discos) e começaram a aparecer os primeiros fanzines punks, como o legendário Factor Zero. Da safra pioneira de 78, sobraram Restos de Nada e AI-5, mas a cena já começava a ficar povoada de nomes como Inocentes, Cólera, Fogo Cruzado, M-19, Lixomania, Olho Seco e Condutores de Cadáver. A Punk Rock Discos lançou então Grito Suburbano, coletânea que se tornou o primeiro LP punk brasileiro, com as bandas Olho Seco, Inocentes e Cólera.

João Carlos Molina Esteves (Jão, guitarra/vocal) e seu primo Roberto Massetti (Betinho, bateria), acompanhados por Jarbas Alves (Jabá, baixo) resolveram levar a fundo sua paixão pelo punk e decidiram montar uma banda. "Nós criamos o Ratos de Porão em novembro de 81, depois de ir num encontro punk que rolou com umas bandas da época, como Inocentes, Olho Seco e Cólera", lembra Jão, que começou tocando guitarra e cantando, passou para a bateria e hoje cuida apenas das guitarras do R.D.P. "A gente jáá tinha idéia de montar banda desde 1980, mas não tínhamos instrumento, não tínhamos nada. A primeira bateria nós compramos em uma igreja de crente, depois descolamos baixo e guitarra". O primeiro passo foi ensaiar muito, afinal, ninguém sabia tocar nada. "Era tudo muito tosco, pois ninguém tocava nada mesmo. Nossa primeira música foi Porquê. A gente ficava a tarde inteira tocando só ela, era um 'tchem, tchem, tchem' que não acabava nunca, parecia um trem passando toda hora", brinca o guitarrista, que não esquece o primeiro show da carreira do grupo. "Foi em 82, quando já tínhamos uma meia dúzia de música compostas. Tocamos numa escola de Pirituba, com o Suburbanos. Estava cheio de bicho-grilo e a gente ficava mandando eles tomarem no cu (risos). Na época, eu cantava e tocava guitarra, os dedos ficavam sangrando. Depois, tocamos até em estacionamento de supermercado". A realidade daqueles dias era muito diferente da de hoje, em que qualquer moleque já sai gravando CD com a mesma facilidade com que muda de estilo musical. "Naquela época, gravar era uma utopia, por isso, a gente nem pensava nisso, só queríamos mesmo era tocar nos festivais punks", completa ele.

Enquanto o Ratos começava a se ajeitar, o destino se encarregava de direcionar para o punk a história de João Francisco Benedan, o João Gordo, um moleque da zona norte de São Paulo, que passou sua adolescência em Angatuba, no interior paulista. "Eu sempre vinha para São Paulo pra comprar uns discos na Galeria (centro da capital). Um dia, vim comprar o It's Alive, do Ramones, e conheci o Fabião (Punk Rock Discos). A loja dele não tinha nada, só um LP da Runaways", lembra o próprio João Gordo, rindo.

Os caminhos de Gordo com bandas punks começaram a se cruzar muito cedo. "Eu sempre brincava de ter banda, de tocar um pouco violão. Foi nessa época que começou o contato com o pessoal do Ratos, que morava na Vila Piauí. Fui conhecendo as pessoas aos poucos. Primeiro, conheci um moleque -cuja avó morava em Angatuba - que andava com a camiseta do Sid Vicious. Depois, conheci o Marinho (hoje no Pavilhão 9), que era uma criança ainda", lembra Gordo. "O Ratinho, um cara que é punk até hoje, ia fazer o backing-vocal do Extermínio, mas ficou doente. Então, os caras da banda me chamaram, pois eu conhecia algumas letras. Foi assim que tive minha primeira experiência com banda. O Jão, que na época deveria ter uns 13 anos, estava nesse show e me viu. Foi ali que tudo começou de fato, ele foi meu descobridor (risos)".

Em julho de 1982, o Ratos de Porão começou a gravar o legendário LP Sub (jáá com Rinaldo Amaral, o Mingau, na guitarra) coletãnea que contava também com Psykose, Fogo Cruzado e Cólera. Durante a gravação desse disco, a banda se aproximou ainda mais de Gordo. "Posso dizer que conheci de fato o Ratos de Porão na gravação do Sub, através do Redson (Cólera). Eram todos molequinhos. Eu costumava ir nos ensaios, nos shows e até nas casas dos caras. Era meio fã mesmo", conta Gordo.

Enquanto Sub era lançado, o conjunto travou seu primeiro contato com a cena do exterior ao participar com uma música (Parasita) da coletãnea norte-americana World Class Punk. Na mesma época, um evento acabou se tornando divisor de águas no movimento punk nacional: o festival O Começo do Fim do Mundo. Organizado por Clemente (Inocentes) e por Antônio Bivar (autor do livro 'O Que é Punk'), o evento durou dois dias no Sesc Pompéia (São Paulo), reunindo 20 bandas e quase três mil punks para ver os shows e exposições de fotos, vídeos e fanzines. Infelizmente, o festival acabou em uma tremenda pancadaria entre a polícia e gangues do ABC e da capital. "Eu estava no interior, não pude ir a esse show. Mas a idéia que ficou era de que o evento se tornou um espelho do país na época, com todo aquele lance de contestação", opina Gordo. "Esse show foi uma ode … feiúra (risos), com um monte de gente com sabão no cabelo, jaco de napa (jaqueta feita de uma espécie de película), calça na altura da canela e tênis Topper. Foram dois dias de caos torpe, reflexo do país na época, por isso, é lógico que tinha que acabar com polícia, quebra-quebra e briga do ABC contra São Paulo. Porém, por mais tosco que tenha sido, ali foi o auge do movimento punk, pois foi um acontecimento que reuniu 20 bandas e milhares de pessoas.

No ano seguinte, Betinho decidiu sair da banda, forçando Jão a ir para a bateria e deixando vago o posto de vocalista. Foi aí que veio João Gordo para o vocal. "O Betinho tinha saído depois de gravar o Sub, por isso, decidi ir para a bateria. Na Época, o Gordo era backing-vocal do Extermínio e acabou entrando no Ratos como vocal", diz Jão. "O Betinho casou muito cedo, com 16 anos, por isso, teve que sair da banda para trabalhar. O Jão decidiu ir para o lugar dele na bateria, mesmo sem ter sequer instrumento pra tocar", conta Gordo.

Com Gordo (vocal), Jão (bateria), Mingau (guitarra) e Jabá (baixo), o Ratos de Porão começou a longa fase de ensaios. "O primeiro ensaio que participei como vocalista da banda foi na Lapa, na casa do Chulé, que hoje em dia é policial. Ensaiamos junto com o M-19 (cujos integrantes hoje fazem parte do Invasores de Cérebro). Depois, ensaiamos um bom tempo com o Inocentes", explica Gordo. "Na verdade, naquela Época era muito difícil ter show, por isso, a gente passava a maior parte do tempo ensaiando".

A falta de shows era reflexo da cena da época: confusão ideológica e repressão policial. "Havia muita repressão policial, as barcas vermelho-e-preto (carros da polícia) paravam a gente por tudo. Se tivesse usando calça tipo do exército os caras levavam tudo e deixavam a gente de cuecas", conta Gordo. "O movimento punk em São Paulo era confuso, muito confuso. Todo mundo era louco, meio junkie. Havia um ou outro com ideologia e idéias políticas, mas a grande maioria não estava nem aí, cheiravam cola e era a maior baixaria".
Na época, a cidade estava recheada por verdadeiras gangues de punks, como a temida Carolina Punk. "A Turma da Carolina existia desde os anos 70. Não tinha show para ir, por isso, o pessoal se reunia em gangues de punk dos bairros. Eu era da zona norte de São Paulo, conhecia todo mundo da Carolina Punk ", diz o vocalista.
Foi nesse clima que pintou a primeira apresentação do Ratos de Porão com João Gordo no vocal. "Foi na PUC, em julho de 1983. De cara, já fui dizendo 'Pau no cu de Deus, da Globo e do ABC' (risos). Foi a primeira coisa que disse e isso está registrado (só) em áudio num curta metragem feito na época, chamado 'Punks'. Eu não me lembro como foi o show e nem lembro se passei som, se tinha PA e retorno, não lembro de nada. Só sei que todo mundo usava os mesmos instrumentos e uns amplificadores Giannini."

Passado o terremoto que foi o show da PUC, o R.D.P. lançou o seu primeiro LP, Crucificados Pelo Sistema, em novembro de 1983. "Não teve show de lançamento, não teve nada. Foi uma época confusa, havia briga toda hora, o movimento punk deu uma esfriada e a própria banda quase acabou depois que o disco saiu", diz Gordo.

Dentro do Ratos, as coisas definitivamente não estavam muito harmoniosas, pois um estilo musical começava a estremecer as bases do conjunto: o heavy metal. "Eu já estava ouvindo Metallica, Venom, Exodus e Slayer. Além disso, as bandas que eu mais gostava estavam indo para o metal, como o Discharge. Foi a fase do crossover, da mistura do metal com hardcore. Então, decidi sair do Ratos". Mesmo desfalcado, o grupo lançou um split-LP ao vivo no Lira Paulistana (antiga casa de shows de São Paulo) com o Cólera, em 1985. "A banda meio que acabou naquela época, só gravamos aquele ao vivo por pura teimosia", confessa Jão. Fechando a primeira fase da carreira do grupo, no mesmo ano o Ratos participou de outra coletânea histórica, a Ataque Sonoro.

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