<-- 1981 - 1985


1986 - 1989


Mas a paixão pela barulheira falou mais alto e Gordo voltou para o Ratos de Porão. Na nova encarnação da banda, Jão deixa a bateria e volta para a guitarra (Mingau foi para o 365 e, muitos anos mais tarde, entraria no Ultraje a Rigor) e Nelson Evangelista Jr. (Spaghetti) chega para ser o baterista. As influências de metal, porém, agora estavam mais fortes. E foi nesse pique que saiu Descanse Em Paz, em 86.

"O Jão e o Jabá viraram metaleiros mesmo, com cabelo grande e tudo (risos). A fase do Descanse Em Paz foi bem Rainbow (bar localizado na zona sul da capital paulista). O Spaghetti, que também era punk, virou metal de vez e só entrou no Ratos porque tinha bateria", confessa Gordo, rindo. "Nessa época, eu era alucinado pelo S.O.D., que para mim foi o divisor de águas da época, pois unia metal e hardcore. Se não fosse o metal, o Ratos de Porão teria acabado, pois não tinha mais show punk, só briga. Então, começamos a frequentar os shows de metal, que eram bem organizados, sempre dava mulher e todo mundo te respeitava".

Não eram só os punks que estavam descambando para o metal, mas o caminho inverso também era latente e irreversível. "Eu comecei a perceber essa aproximação quando ia na Galeria do Rock e via os moleques metaleiros com camiseta do Ratos de Porão e LPs de hardcore debaixo do braço. Foi nessa época que começaram a me chamar de 'traidor do movimento', coisa que só parou quando eu assumi que sou traidor mesmo. De movimento que é só baixaria e briga, sou traidor mesmo", ironiza Gordo.

Começando pela própria capa, Descanse Em Paz foi um álbum bem sombrio. "O disco tem um ar meio pesadão, a época foi meio foda. A gente gravou no dia do aniversário do Spaghetti, na hora da festa de aniversário do cara (risos). Estava todo mundo louco de ácido, foi uma tosqueira", diz Gordo. Mas Jão vê a coisa sob outro ângulo: "Eu era bem desencanado, pois trabalhava de peão de segunda a sexta. Essas deprês todas eram mais do Gordo, que tomava umas bolas e ficava deprimido."

No ano seguinte, o R.D.P. solta Cada Dia Mais Sujo E Agressivo, que sela em definitivo seu flerte com o metal e tem como convidados especiais o pessoal do Sepultura. Até os desenhos do encarte foram feitos pelo Igor Cavalera. "E tem mais: eu peguei esse título para o álbum da parede da casa do pessoal do Sepultura (em Belo Horizonte), que na época era tudo moleque. Estava escrito em inglês. A casa nem existe mais, foi demolida para construírem um prédio", lembra Gordo.

Foi nessa época que se consolidou a grande amizade entre João Gordo e a galera do Seputlura. "Aquela fase foi muito legal, nós éramos muito amigos. A amizade começou em 1986, quando fui a Belo Horizonte ver o show do Venom com o Exciter. Eu estava acostumado com os metaleiros de São Paulo, que tinham até carro próprio, por isso, tomei um susto quando conheci os caras do Sepultura. A casa do Paulo (Jr., baixista) era uma tosqueira, parecia que ia desmoronar", lembra. "Todo mundo começou a crescer e pensar de forma mais profissional naquela fase, tanto o Sepultura quanto o Ratos de Porão".

Foi nessa fase também que começou a história de lançar os discos em versão inglês e português. "Isso foi idéia do João Eduardo (do selo mineiro Cogumelo Records). Se mesmo hoje eu não falo inglês, imagina então naquela época. Eu tenho vergonha da versão em inglês (Dirty And Aggressive), é uma coisa bem macarrônica, do tipo que gringo vê e dá risada. Por outro lado, aquele disco teve uma puta produção legal para a época", admite Gordo.

"Eu nunca curti muito o Ratos de Porão em inglês, acho que todas as tentativas foram mal sucedidas. A exceção talvez seja o Massacreland, em que as músicas já foram feitas originalmente em inglês", assume Jão.

Em 89, a banda finalmente pãe os pés na em território europeu pela primeira vez. "Nós chegamos a ir para a Europa (gravar) antes do Sepultura. Já estávamos meio que desligados do movimento punk de São Paulo, nossos shows enchiam da galera metal. Tínhamos conseguido um contrato com a Eldorado e o Sepultura com a Roadrunner. O Sepultura gravou Beneath The Remains no Rio e o Ratos gravou em Berlim. Depois de gravar, fizemos uns shows em alguns clubinhos punks da Itália e da Holanda", recorda Gordo. "Até aquele momento, não tínhamos tido contato com o movimento punk de verdade, apenas com aqueles esgotos daqui, que eram só bagunça. Na Europa, tivemos contato com o movimento punk organizado, sem brigas, com shows nos squats (prédios abandonados, geralmente destruídos por alguma guerra, que são tomados por sem-tetos e, em alguns casos, punks). Ficamos três meses vendo isso e o choque cultural foi muito grande".

De volta ao Brasil com a gravação debaixo do braço, a banda lançou seu disco de maior repercussão até então, Brasil. "Naquele disco, a gente fala mal do país o tempo inteiro, desde a capa até a última música. Esse disco marcou uma época para nós, fizemos muitos shows", diz Gordo. "Também fizemos uma versão em inglês desse álbum, mas ficou uma bosta. Mas era uma bosta bem produzida (risos). Não tem jeito, Ratos de Porão tem que ser em português".

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